16 August 2017

 
A latrina, o dinâmico mundo da banca, a política, os grandes vultos nacionais, Portugal numa casca de noz, todos reunidos num educativo compacto para uma leitura de férias agradável e levezinha

Radicais livres (LIII)



SEM MEDO 


De Winchester para Bristol, de Bristol para Paris, o ponto de chegada na trajectória de Kate Stables, aka This Is The Kit, não se limitou a enriquecer-lhe o sentido de humor linguístico – a constatação de que, em França, será sempre irremediavelmente conhecida como Zis Iz Za Kit – mas fê-la igualmente despertar para o mundo à volta, de modo muito mais atento que na plácida Inglaterra: “Sinto que é altura de não ter receio de falar de política em nome da boa educação ou por medo de ofender alguém. Temos de dizer abertamente o que pensamos do mundo, não podemos entregar-nos nas mãos de políticos e milionários que têm feito um trabalho miserável. Uma das coisas, intrinsecamente francesas, que aprendi aqui foi que, se alguma coisa não está bem, sai-se logo para a rua em protesto. Num instante, a Place de La République enche-se de milhares de pessoas manifestando o seu descontentamento”


É bem capaz de ser disso que ela fala em "Bullet Proof" (“To be patient and awake, there are things to learn here, Kate“), a primeira faixa de Moonshine Freeze, distintíssimo sucessor do óptimo Bashed Out (2015). E que, em "Easy On The Thieves" aplica (“People want blood, and blood is what they've got; suckers feeding, you could feel them wheedling, once you had some space, now you've got panicking, that's just how they work, exactly how they win, first they dope you up, and then they dope you in”), justificando: “Não somos nós quem rouba nem somos os corruptos mas, se fingirmos que nada vemos, seremos também responsáveis. E não esqueçamos o venenoso papel dos media que nos intoxicam e manipulam com notícias falsas”. É, então, Moonshine Freeze o álbum “de protesto” de Kate Stables? Não afunilemos a escuta: se pode dizer-se que “Everything we broke today, needed breaking, anyway” é, eventualmente, generalizável, não haveria perdão para quem não prestasse toda a atenção à infinita riqueza de pormenores urdida pela produção de John Parish (depois de We Dissolve, de Chrysta Bell, outro prodígio de subtileza electroacústica), pelas espirais de guitarra-nos-interstícios de Aaron Dessner, mas, sobretudo, pela voz, pelas melodias e palavras de uma discípula dos Dylan – Thomas e Bob – (“e dos Sleaford Mods!”, acrescenta ela, veementemente), “viciada em aliterações e na magia da linguagem para além dos dicionários”.

14 August 2017


Edit (15/08): ... têm mesmo de afastá-la da bebida...
Já vencedora, em 2016, dos Prémios "Flower Power" e "Portugal Fashion", Assunção Cristas arrebata também, agora, o

 2017 - Prémio “Perfume de Mulher”


This Is The Kit: From Morecambe Bay to Clive Sullivan Way

APENAS É 

Num texto para a “New Yorker” do passado 12 de Julho, Alex Ross – o autor de The Rest Is Noise: Listening to the Twentieth Century (2007) – referia-se ao discurso que, dias antes, o ignaro Trump havia proferido em Varsóvia, no qual, defendendo a superioridade da civilização ocidental, argumentara “We write symphonies!” E acrescentava que, no dia seguinte, durante a cimeira do G20, em Hamburgo, “The Donald”, na companhia de gente tão pouco recomendável como Putin, Erdoğan, Xi Jinping ou Ibrahim Abdulaziz Al-Assaf (Arábia Saudita), assistira a uma interpretação da “Nona” de Beethoven. O que Joachim Lux, do Thalia Theatre, consideraria “um abuso pornográfico da arte”: apresentar uma das bandeiras da fraternidade universal perante uma plateia que incluía governantes capazes de espezinhar diariamente os direitos humanos não seria senão uma fantochada.



É, então, um bom pretexto para recordar aquilo que, em A Nona Sinfonia de Beethoven: Uma História Política (1999), Esteban Buch escreveu: “Os músicos românticos transformaram-na num símbolo da sua arte. Aos olhos de Bakunine, que sonhava fazer tábua rasa do mundo burguês, apenas a ‘Ode à Alegria’ merecia ser salva. Os nacionalistas alemães admiravam a potência heróica dessa música, enquanto os republicanos franceses reconheciam nela a tripla divisa de 1789. Se os comunistas a olhavam como o evangelho de um mundo sem classes, para os católicos era, pura e simplesmente, o Evangelho que nela estava espelhado. (...) E era com ela que Hitler festejava os seus aniversários, apesar de as suas vítimas a tocarem como símbolo de oposição nos campos de concentração. (...) Foi, em tempos, o hino da república racista da Rodésia, como é hoje o hino da União Europeia”. 41 anos antes de Buch, a 18 de Janeiro de 1958, num dos seus Concertos para Jovens subordinado ao tema “O que significa a música?”, Leonard Bernstein (depois de contar uma trepidante aventura do Super Homem como argumento imaginário do Don Quixote, de Richard Strauss) tinha já deixado o assunto razoavelmente esclarecido: “Sejam quais forem as histórias que vos contem acerca do que a música quer dizer, esqueçam-nas. O que a música significa não são histórias. A música nunca é sobre coisa alguma. A música apenas é. A música são notas, belíssimas notas e sons combinados de tal forma que retiramos prazer de os escutar e nada mais. (...) Não precisamos de histórias nem de imagens para nos explicar o que a música significa”.
Radicais livres (LII)

Anonymous

We Are Legion: The Story of the Hacktivists (real. Brian Knappenberger, 2012)

21 July 2017

Vai lá snifar Zyklon B, vai, pá...
Public Service Broadcasting - "London Can Take It"

"Um candidato do PSD e do CDS a uma autarquia, de seu nome André Ventura, resolveu dizer que há um grupo que 'em termos de composição de rendimento vive exclusivamente de subsídios do Estado' e que se sente com uma 'enorme impunidade', não tendo interiorizado 'o Estado de Direito'. Veio entretanto procurar corrigir-se e dizer, no fundo, que não acredita em bruxas, mas que elas existem. Em abstracto, passe algum exagero, até tendo a concordar com estas declarações. Cruzo-me, especialmente ao almoço em alguns restaurantes de Lisboa ou até em alguns convívios supostamente irrepreensíveis, com pessoas que quase posso jurar que vivem ou viveram em boa parte de exaurir selectivamente o Estado ou, de formas mais ou menos mediatas, até os contribuintes, portugueses e estrangeiros, e cujo sentimento de impunidade é notório – e porque não o seria? Sobre o seu interior e o conceito de Estado de Direito prefiro não me pronunciar" (aqui)