12 November 2007

TOP 100 DO SÉCULO XX (V)
(organizado - ordem alfabética - para a revista Op em 2003)



JUNE TABOR - Angel Tiger
THE KINKS - The Kink Kronikles
KRAFTWERK - Trans-Europe Express
LAURIE ANDERSON - Big Science/Life On A String
LEILA - Like Weather
LEONARD COHEN - Songs Of Love And Hate


[numa outra lista de 1999/2000 que ficou seriamente amputada e incompleta surgiu isto:

LEONARD COHEN
Songs Of Love And Hate
Produção: Bob Johnston
Intervenientes: Leonard Cohen; arranjos de Paul Buckmaster
Primeira edição: Columbia, 1969

Sexo, morte e Deus. Amor e ódio. Paraíso e Inferno. Leonard Cohen nunca escreveu sobre outros temas (mas há outros temas?). Tanto enquanto (muito bom) poeta, novelista (sofrível) e "songwriter" (sublime). E nunca o escreveu de modo tão arrasadoramente total como no seu terceiro álbum da capa a preto e branco onde o rosto por escanhoar — não, nessa altura ainda não estava instituido o chique da "barba de três dias" — evita o nosso olhar com algo que, muito menos do que um sorriso, é um esgar de escárnio e desafio. Desde as primeiras palavras ("I stepped into an avalanche it covered up my soul"), é um puro exercício da mais letal intoxicação que se inicia. E o começo da mais radical iniciação que intoxica. Para sempre. "You who wish to conquer pain you must learn, learn to serve me well" define as regras, "your laws do not compel me to kneel, protest and bare" é a chegada ao último estádio de todos os rituais gnósticos, "the crumbs of love you offer me are the crumbs I left behind" reinventa o erotismo sagrado e "I have begun to long for you, I who have no greed, I have begun to ask for you, I who have no need" regressa ao desgraçado nível humano. E tudo só na primeira canção, com as espirais narcóticas das cordas de Paul Buckmaster no mais doce dos estrangulamentos. Judeu, sufi, zen, tântrico e cristão herético. Mas, depois, há ainda a inominável e desesperada encenação da descida ao abismo de "Dress Rehearsal Rag", o grotesco teatro do vazio de "Diamonds In The Mine" e "Sing Another Song, Boys", a esotérica e lendária vertigem material de "Love Calls You By Your Name", as flamejantes bodas alquímicas de "Last Year's Man" e (sobretudo) "Joan Of Arc" e, acima de todas, "Famous Blue Raincoat", a canção de abandono, liberdade e desprendimento, mais que perfeita de todos os tempos. Com a assinatura final "sincerely, L. Cohen".

OUVIR TAMBÉM: Suzanne Vega (Suzanne Vega)]

LIQUID LIQUID - Liquid Liquid
LLOYD COLE & THE COMMOTIONS - Rattlesnakes

[numa outra lista de 1999/2000 que ficou seriamente amputada e incompleta surgiu isto:

LLOYD COLE & THE COMMOTIONS
Rattlesnakes
Produção: Paul Hardiman
Intervenientes: Stephen Irvine, Neil Clark, Lawrence Donegan, Blair Cowan, Lloyd Cole, Ann Dudley (arranjos de cordas)
Primeira edição: Polydor, 1984

A poeira da sublevação punk tinha definitivamente assentado. A "new wave" tinha cumprido a contento a sua missão histórica de pegar nos destroços resultantes do motim e, a partir deles, reconstruir um vocabulário pop de novo enxuto e viável. Era, pois, o momento apropriado para a eclosão de uma nova geração de "songwriters" pop que, mais uma vez, sem cair na infinita e enjoativa reciclagem de modelos anteriores, no interior da clássica "guitar band", se aprestava para acrescentar novos capítulos ao "songbook" da música popular. Elvis Costello assumia a função de santo padroeiro e, à sua sombra, a pop britânica e esferas de influência adjacentes renovavam-se. Os Smiths de Morrissey e Marr terão, possivelmente, encarnado a figura de ícones lendários mas foi a Lloyd Cole & The Commotions que calhou a responsabilidade de conceber e concretizar a mais imaculada colecção de canções pop — no que isso significa de simultaneamente imediato e sofisticado — que os anos 80 escutariam. A meio caminho entre influências reconhecidas e pastiches deliberados (dos Byrds, de Bob Dylan, dos Love, da soul), fazendo do "name dropping" uma forma literária pop superior e reinventando o "tricot" das guitarras electricas e o veludo dos arranjos de cordas como estojo de luxo para melodias e textos de elevado teor de contágio dedicados ao louvor e ao escárnio de figuras com "cheekbones like geometry and eyes like sin", "sexually enlightened by Cosmopolitan" e que evocam "Eve Marie Saint in 'On The Waterfront'", "Jules Et Jim" e Simone de Beauvoir, Rattlesnakes estabeleceu um novo padrão de referência pop. Que o próprio Lloyd Cole e respectiva geração só irregularmente voltariam a atingir.

OUVIR TAMBÉM: Easy Pieces e Mainstream (Lloyd Cole & The Commotions); Bad Vibes e Love Story (Lloyd Cole); Imperial Bedroom (Elvis Costello); The Smiths e The Queen Is Dead (The Smiths); Reading, Writing & Arithmetic (The Sundays); Before Hollywood, Liberty Belle & The Black Diamond Express e 16 Lovers Lane (The Go-Betweens); High Land Hard Rain (Aztec Camera); You Can't Hide Your Love Forever (Orange Juice); Suzanne Vega (Suzanne Vega); Dreamtime (Tom Verlaine); Jordan-The Comeback (Prefab Sprout); Apple Venus-Vol. 1 (XTC); 69 Love Songs (The Magnetic Fields)]

LOU REED - Transformer/New York/Magic And Loss/Songs For Drella (c/ John Cale)/The Raven
LOVE - Forever Changes

[numa outra lista de 1999/2000 que ficou seriamente amputada e incompleta surgiu isto:

LOVE
Forever Changes
Produtor: Arthur Lee/Bruce Botnick/David Angel (arranjos)
Intervenientes: Arthur Lee, Bryan MacLean, Johnny Echols, Ken Forssi, Mike Stuart, Hal Blaine, Billy Strange, Don Randi
Primeira edição: Elektra, 1967

Em 1966, os Love foram a primeira banda de rock a assinar com a Elektra. O que só é importante na medida em que a segunda foram os Doors. Em plena Los Angeles do "flower power", Arthur Lee, um esquizofrénico "borderline", rebaptizou os Grass Roots como Love mas, de acordo com a sua atitude e estilo de vida, havia quem achasse que o grupo se deveria chamar Hate. Influenciado pelos Byrds, Hendrix, Stones e pela atmosféra psicadélica da era, Lee era alternadamente descrito como "a black freak on the white scene" ou — devido à sua devoção a Mick Jagger — "um negro americano a imitar um branco inglês que imita um negro americano". Os primeiros álbuns (Love, 1966 e Da Capo, 1967) eram puro psicadelismo "west coast" mais folk ou hard-rock mas seria com Forever Changes que o culto dos Love se estabeleceria. Inicialmente pensado com produção de Bruce Botnick e Neil Young, as obrigações deste para com os Buffalo Springfield acabariam por entregar a Botnick a difícil gestão de um grupo que se recusava a actuar ao vivo e de que três quintos estavam irremediavelmente agarrados à heroína. Com músicos de estúdio (Blaine, Strange e Randi), para acorrer às emergências, foram gravados "Andmoreagain" e "The Daily Planet" o que serviu para espicaçar o brio dos "junkies" de serviço e registar a matriz de toda a pop orquestral futura. Guitarras de flamenco, melodias perfeitas, secções de cordas e sopros e o sublime "songwriting" alucinado que a época autorizava instituiram a lenda. Forever Changes transformou radicalmente o mundo da pop e, ainda hoje — na vertente melódica e orquestral —, damos por isso.

OUVIR TAMBÉM: Curtains (Tindersticks), A Short Album About Love (The Divine Comedy), Nighttown (The Walkabouts), Ocean Rain (Echo & The Bunnymen)]

(2007)

2 comments:

quim seguro said...

O Hal Blaine é quase que um denominador absoluto da mais perfeita música alguma vez gravada. Bastava a "Be my baby". Não concordas?

N. said...

"evita o nosso olhar com algo que, muito menos do que um sorriso, é um esgar de escárnio e desafio"
só por teres dito, o Cohen devia ouvir-te, e retorquir-te: aos meus braços, João!
(e beijava-te as faces sem decoro ou contenção...:D; só lhe ficava bem)