08 January 2008

HISTÓRIA ABREVIADA DO ROCK’N’ROLL


Chuck Berry caminha pelo North Grand Boulevard, aproxima-se da bilheteira do Fox Theatre de St. Louis e recorda como, com onze anos, quando pretendia ver A Tale Of Two Cities, a entrada aí lhe fora vedada sob o argumento “you know you people can’t come in here”. Atravessa a porta de entrada e, como que falando de si para si, murmura “as coisas mudaram, mudaram mesmo muito; nunca deixei de pensar que, um dia, haveria de voltar”. Já no interior do imenso lobby do teatro, filmado em plano picado, prossegue: “Este teatro era a ‘Grande Via Branca’ de St. Louis. A epítome (sim,Berry fala exactamente assim) do negócio do teatro. E o pai do rock’n’roll, um pau nessa grande engrenagem, esta noite, será a estrela a subir ao palco. Eu”. Encosta-se a uma das colunas de assombroso kitsch “exótico” esculpidas por Victor Berlendis e remata: “A poucos quarteirões daqui, antepassados meus foram vendidos, nas escadarias do tribunal. Vendidos. É verdade, as mudanças foram enormes”. Corte para os bastidores e, aclamado em triunfo, Chuck Berry toma posse do palco.


É desta matéria – uma parte da memória da América negra e outra da do rock’n’roll, no ponto onde ambas se confundem – que se constrói Hail! Hail! Rock’n’Roll, o filme/documentário (agora reeeditado em duplo DVD com diversos extras) que, em 1986, o não demasiado estimável Taylor Hackford (aqui, porém, competente e razoavelmente eficaz) realizou em torno do concerto de consagração dedicado a Chuck Berry, sob direcção musical de Keith Richards. Ou, como o próprio Richards se define, não tanto isso mas antes “S & M director, social and musical director is the polite way”. Porque, “se alguém tinha de o fazer, teria de ser eu”. Displicentemente recostado num sofá do camarim, junto ao lavatório, Richards interroga-se sobre se Berry terá a exacta noção da sua importância:
“Provavelmente, o Miguel Ângelo também não se achava nada de especial. Mas eu sei que foi quando ouvi ‘Johnny B Good’ que percebi que era exactamente aquilo que queria fazer. Não fazia a menor ideia se isso poderia ser um modo de vida. Mas tenho a certeza que, mesmo que me tivesse tornado contabilista, não teria deixado de tocar rock’n’roll”. E não deixa de ser fascinante testemunhar como, entre mestre e discípulo, durante os ensaios, a mútua admiração se apimenta de pequenos conflitos e despiques (“O Chuck foi, até hoje, o único tipo que, uma vez, me deu um murro e a quem eu não respondi. Fiquei até muito orgulhoso de não ter caído ao chão”) e como todos os outros participantes e entrevistados – as conversas a três com Bo Diddley, Little Richard e Berry são memoráveis –, de Jerry Lee Lewis (“era ele o rei do rock’n’roll, não eu, que não restem dúvidas”) a Eric Clapton, não se furtam à vénia perante quem, desde 1955 e “Maybellene”, verdadeiramente inventou o segundo género musical que – após o jazz – a América doou ao mundo.

Johnny Cash – The Unauthorized Biography poderia muito bem ser um óptimo complemento para Hail! Hail! Rock’n’Roll e até o antídoto contra o telenovelesco “biopic”, Walk The Line (2005), de James Mangold. No entanto, este documentário sobre a vida e carreira do que se poderia perfeitamente encarar como um Frank Sinatra da country e dos primórdios do rock branco sofre de dois males irreparáveis: escassez de imagens (perde-se a conta ao número de vezes que as mesmas fotografias e planos são cansativamente repetidos) e praticamente total ausência… da música de Cash, certamente devido a irresolúveis nós contratuais. O que, no caso, reduz tudo a uma narrativa mortalmente amputada da sua mais directa e imprescindível referência, condenando quem desconheça a obra de Cash a imaginá-la como melhor for capaz.

Na porta de saída desta história abreviada do rock’n’roll em três DVD, posta-se Ramones: It’s Alive 1974-1996, colecção de 32 concertos e excertos de entrevistas catatonicamente monossilábicas dos elementos da banda que, higienicamente, devolveu o rock ao Paleolítico e mais não se lhe deveria exigir. Porque escutar Joey, Dee Dee ou Johnny Ramone depois da eloquência (comparativamente, quase shakespeareana) de Chuck Berry, chega a ser penoso. (2007)

4 comments:

cj said...

Aqui domina-se o tempo!
Ainda agora entrei em 2008 e aqui o João já vai em Agosto.
è por isso que sempre o gostei de ler - é sempre muito à frente... ;)

João Lisboa said...

Eh eh eh!

Era um post que estava congelado em "draft". E, nas post options, o 8.1 transformou-se em 1.8.

Já está corrigido.

rui g said...

É engraçado como dos três, é precisamente do mais básico que me recordo melhor e de que mais gosto. Chuck Berry é bom mas é pré-histórico. Johnny Cash só foi (muito) bom com «Amercian Recordings IV». P.S. Mais um texto esplêndido da sua autoria.

RG

rui g said...

Claro que o disco de J.Cash a que me referia é «American recordings IV». Peço desculpa pela gralha.