07 June 2013


"Adquirira o hábito de olhar à minha volta, de observar as pessoas com quem me cruzava na rua, no metro, na tasca onde fazia as minhas reflexões do meio-dia. Que é que via? Caras tristes, olhares fatigados, indivíduos desgastados por um trabalho mal pago, mas obrigados a fazê-lo para sobreviver, apenas podendo dispor do mínimo essencial. Seres condenados à mediocridade perpétua: seres parecidos uns com os outros, quer no trajar, quer nos problemas financeiros do fim do mês. Seres incapazes de satisfazer os seus mínimos desejos, condenados a ser sonhadores permanentes frente às montras de luxo e às agências de viagens. Os estômagos, clientes habituais do prato do dia e do copinho de vinho tinto ordinário. Seres que conhecem o futuro por não o terem. Robôs explorados e paralisados, respeitadores das leis, mais por medo do que por honestidade moral. Submissos, vencidos, escravos do despertador.

Eu fazia parte deles por obrigação mas sentia-me estranho àquela gente. Não aceitava. Não queria que a minha vida estivesse previamente resolvida, nem que fosse decidida por terceiros. Se às seis da manhã tivesse vontade de fazer amor, queria ter tempo de o fazer sem olhar para o relógio. Queria viver sem horas, considerando que o primeiro constrangimento do homem nasceu no momento em que ele se pôs a calcular o tempo. Todas as frases habituais da vida corrente me ressoavam na cabeça... Não são horas de...! Chegar a tempo...! Ganhar tempo...! Perder tempo...! Eu queria 'ter tempo para viver', e a única maneira de lá chegar era não ser escravo dele. Sabia como a minha teoria era irracional, que era inaplicável como fundamento de uma sociedade. Mas o que era essa sociedade sem os seus belos princípios e as suas belas leis?". (O Instinto de Morte: Autobiografia De Um Fora-Da-Lei - Jacques Mesrine)

1 comment:

Anonymous said...
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